Corpo-oralidades: afeto, política e história oral em perspectiva interseccional

Authors

  • Juniele Rabêlo de Almeida Universidade Federal Fluminense
  • Mariléa de Almeida Universidade de Brasília

DOI:

https://doi.org/10.51880/ho.v28i2.1624

Keywords:

corpo-oralidade, História oral, Afeto, Política, Interseccionalidade

Abstract


Propõe-se uma reflexão sobre os trabalhos de história oral, na interface entre afeto e política, a partir do conceito de corpo-oralidade em perspectiva interseccional. A dimensão intercorpórea e relacional dos processos de escuta questiona a produção de conhecimento organizada em dicotomias hierarquizantes, como corpo/mente, oral/escrito e pensamento/ação, e reconhece temporalidades não lineares que entrelaçam passados, presentes e futuros. Discute-se o corpo como locus de enunciação, memória e (re)existência, especialmente no caso de corpos racializados e generificados, historicamente atravessados por violências e tecnologias de controle. Analisa-se a importância dos gestos, posturas, expressões, entonações e ritmos dos movimentos corporais como parte das narrativas corpo-orais. As discussões materializadas no dossiê Corpo-oralidade, sem distância afetiva entre os corpos implicados nas pesquisas, reafirmaram a necessidade política e existencial dos bons encontros. A história oral, em sua dimensão participativa, atenta à construção coletiva de acervos públicos, pode articular metodologicamente corpo e oralidade a partir de deslocamentos interseccionais que contribuam para abordagens feministas, antirracistas, pró-LGBTQIAPN+ e contra-coloniais no movimento corporificado da história oral.

Author Biographies

Juniele Rabêlo de Almeida, Universidade Federal Fluminense

Professora do Instituto de História da Universidade Federal Fluminense (UFF), além de atuar no Programa de Pós-graduação em História da mesma instituição. Doutora em História Social (USP) e mestre em História (UFMG). Foi bolsista CAPES-Print, na modalidade "pesquisadora visitante" na University of California, UC Berkeley (2020). Realizou pós-doutorado na UFMG (2011) e na UC / UFRGS (2020). Integrante das comissões administrativas/científicas da Rede Brasileira de História Pública (Rebrahip), Red Latinoamericana de Historia Pública (RedLaHP) e Rede Trajetórias Docentes. 

Mariléa de Almeida, Universidade de Brasília

Historiadora e Psicanalista. Professora no Departamento de História da Universidade de Brasília (UnB), na área de Teoria e Metodologia do Ensino de História. Doutora em História pela UNICAMP. (2018). Em 2015, realizou o doutorado sanduíche na Columbia University (Nova York), com foco nos feminismos negros estadunidenses. Sua tese "Territórios de Afetos: práticas antirracistas nos quilombos contemporâneos do Rio de Janeiro recebeu menção honrosa no II Prêmio de Teses Eclea Bosi promovido pela Associação Brasileira em História Oral (ABHO). Seus principais temas de pesquisas são: relação entre afeto e política, epistemologias quilombolas, educação antirracista, cujas análises dialogam com as epistemologias feministas, teorias decoloniais, teoria da história, filosofia da diferença e psicanálise.

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Published

2025-09-17

How to Cite

de Almeida, J. R., & de Almeida, M. (2025). Corpo-oralidades: afeto, política e história oral em perspectiva interseccional. História Oral, 28(2), 5–17. https://doi.org/10.51880/ho.v28i2.1624